As aventuras de uma intrépida turista na lapa.

maio 16, 2017 por CruzdeOuro
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Perigo na adorável Lapa? A maior aventura de turista inglesa foi encontro íntimo com um bolinho de maconha

bg-lapaQuando eu contei aos meus amigos e colegas em Londres que eu viria ao Rio a trabalho, eles reagiram ao mesmo tempo com admiração e inveja. Ipanema, Pão de Açúcar, Cristo Redentos…Eu podia ver eles imaginando aquelas imagens perfeitas de cartões-postais.

Eu sabia que as minhas duas semanas trabalhando em O GLOBO seria muito mais de longos dias dentro do escritório do que de longas noites de samba e caipirinha. Com uma longa lista de grandes notícias – Lula, Lava-Jato, e a crise econômica – eu rapidamente entendi que a redação de um jornal brasileiro é de fato um local bastante agitado. Mas quando eu acordei nesta sexta-feira e li a edição matutina da newsletter do GLOBO, descobri que as notícias vieram bater na porta do meu hotel: “Perigo na Lapa

De repente eu comecei a temer pela minha segurança…Colegas me avisaram para tomar cuidado nas ruas – especialmente na Lapa – ‘não use seu smartphone na rua’, ‘não ande pelas ruas à noite’. Mas eu ignorei eles – eu me orgulho de ser uma viajante intrépida, e para mim a diversão de viajar é me misturar com as pessoas nas ruas enquanto elas seguem com suas vidas. Eu continuei caminhando até o trabalho, e frequentando os bares e restaurantes da Lapa durante a noite sozinha.

Eu fiquei surpresa quando a notícia de que gangues praticam assaltos na região foi divulgada. Lamentei muito pelas pessoas que sofreram nas mãos dessas quadrilhas, as férias delas foram arruinadas, e eles sofreram um trauma enorme. Será que eu deveria parar de sair sozinha? Eu deveria parar de frequentar a Lapa de uma vez?

Apesar de as manchetes terem me chocado, elas não condizem com a minha experiência. A minha impressão da maioria esmagadora dos cariocas é de que eles são carinhosos e acolhedores. Eu testemunhei vários momentos aleatórios de gentileza. Teve um homem no supermercado que percebeu a minha dificuldade com as minhas compras. Ele cedeu seu lugar na frente da fila para que eu pudesse passar. Em uma ocasião eu deixei cair minha bolsa aberta no chão e espalhou moedas por toda a calçada, um local sorriu getilmente e me ajudou a catar todas as moedas, uma por uma.

Para ser franca, a maior aventura que aconteceu comigo não envolveu um bando de criminosos, mas uma dupla de garotas espanholas de 21 anos. Quando eu voltava para o hotel após uma noitada com amigos, eu decidi parar em um bar na Lapa, sozinha – uma chance para tomar uma saideira e ver o mundo passar numa noite de sexta-feira. As garotas em questão pareciam bastante sociáveis – elas paravam para conversar com todas as mesas na calçada. Pareciam bastante animadas – E rapidamente ficou claro o motivo disto. Quando elas chegaram até a mim, eu pude perceber seus olhares embaçados, quanto elas ofereciam uma bandeja cheia de bolos de maconha caseiros, do tamanho de bolas de golfe.

No momento que elas me mostravam com orgulho seus produtos, elas caíram na gargalhada, derrubando a bandeja e jogando bolo em todas as direções. Vendo a mercadoria delas na sarjeta, cobertas de terra e sujeita, eu me senti ainda mais aliviada de não ter aceitado a oferta delas… E o que eu fiz? Eu fiz exatamente o que qualquer bom carioca faria: sorri e ajudei elas a pegar todos os bolinhos, um por um, e segui feliz no meu caminho…

*Lucia Adams é jornalista
FONTE: https://oglobo.globo.com/rio/perigo-na-adoravel-lapa-21333838